A REIVINDICAÇÃO DA VIOLÊNCIA: gênero, sexualidade e a constituição da vítima

Roberto Efrem Filho

Resumo


O artigo objetiva discutir como relações de gênero e de sexualidade operam na tessitura de narrativas sobre violência e como a reivindicação narrativa da violência atua no perfazimento de relações de gênero e sexualidade. Valho-me da análise de narrativas a respeito do “caso Emília” – um caso de estupro e assassinato – acionadas por algumas das mulheres que compuseram o Comitê de Solidariedade dedicado a desvendar o desaparecimento. Tais narrativas foram acessadas através do acompanhamento de atividades em que as integrantes do Comitê se encontravam, mas, sobretudo, por meio de entrevistas junto a cinco dessas integrantes. Parte-se de três tematizações principais: a) a de que a “luta por justiça” requer, de antemão, a disputa pela legitimidade de a vítima ser uma vítima, de modo que as imagens de brutalidade acionadas pelos movimentos sociais performatizam os corpos das vítimas e auxiliam no forjamento desses corpos como vitimados; b) a de que, no seio dessas disputas, a publicização da intimidade da dor e do sofrimento costuma operar nos contornos de legitimação de denúncias, denunciantes e vítimas, mobilizando, por exemplo, noções de gênero ligadas à maternidade na performatização e na organização do sujeito político coletivo que reivindica o reconhecimento da violência; e, por fim, c) a de que as reivindicações narrativas da violência tendem a acionar e atualizar inúmeras convenções de gênero e sexualidade, como aquelas que envolvem as noções de “prostituição” e “tráfico de pessoas”, recolocando ou retensionando convenções morais acerca da sexualidade.

Palavras-chave


violência; vítima; gênero; sexualidade



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